domingo, 24 de abril de 2011

Às ervilhas!


Então me perguntarás, caro leitor: por onde andei nesses dois longos e dolorosos meses sem postagens? Economiza, pois, tua saliva e espera que a resposta te será dada.
Eu caminhei por ruas desertas, peguei jacaré em praias da Sibéria e toquei xilofone com Gil. Fora isso, as coisas vãs se apossaram com toda a força do meu horário, mas deixemos isso de lado e vamos ao que importa, que é o que realmente importa.
Passou-se o carnaval, as cinzas foram levadas pelo vento, passou-se a quaresma e passou-se a páscoa. Incubei-me durante um tempo, refleti, quebrei e cumpri promessas e mudei de convicções. Porém a vida ainda está aí fora, correndo como o sangue nas minhas veias e artérias. Às vezes ela escorre lentamente como uma gota de chuva que bateu na janela e não sabe se está pronta para cair ao chão. Tem hora que ela para, contradizendo o que dizia aquele nobre poeta. Entretanto, na maioria do tempo, ela corre. Vai à deriva de tudo, intrinsecamente imparcial e independente. Sem se importar com nada, escolhe quando, onde e como, com ou sem porquê. Cabe a nós, reles mortais, apreciar as pequenas e puras coisas. O amor platônico, o leve tocar do piano, as ervilhas... Oh, esses belos grãos. Como fazem diferença na nossa insignificante existência. Sabor tão enigmático, cor tão viva e imponente. Doce? Talvez. Bela? Sem dúvida. 
Não esperemos mais! Às ervilhas! Devoremo-las, com delicadeza. Apreciemos cada singular momento que nos seja concedido com sua presença. Sintamo-las em nossas mãos, em nossa boca, em nossas línguas. Tão agradável quanto saboroso seja. Ponto. Espero ter dado o reconhecimento adequado à nossa adorada leguminosa, que passou anos e anos esquecida e subestimada em latas de conserva. Que, a partir de agora, não faltem referências gloriosas à sua importância política, emocional, literária e econômica. Às ervilhas!

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