quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Cores de odor cítrico e pungente

Três horas da madrugada. Acordo suado, sentindo aquele calor característico da pólis recifense. Ouço os habituais barulhos da noite e deixo a minha mente divagar, tentando retornar ao sonho que tive. Ou ao menos me lembrar dele...
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O relógio da sala bate quatro horas da manhã. Acordo novamente. Levanto-me e percebo que tentar dormir seria um esforço inútil. Imagens passam rapidamente pelos meus olhos. Seus cabelos balançando ao mais puro clichê do vento. Seus olhos me olhando sem entender. Não há mais nada para entender. Tudo o que sinto é a angústia de ser tão incapaz de lhe dizer algo. E o momento que poderia durar para sempre não dura mais que três segundos. Silenciosos segundos que me torturaram e continuam a me torturar permanentemente com o arrependimento. A embriaguez vai passando e levando consigo a dormência, tornando a dor quase insuportável. Depois de tão longa sessão de auto flagelo, mergulho no marasmo dos sonhos novamente, onde não há sofrimento, melancolia, ilusão ou desilusão. Só há cores de odor cítrico e pungente.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A arte da insensatez

E disse São Paulo: "Ninguém se iluda: se algum de vós pensa que é sábio nas coisas deste mundo, reconheça sua insensatez, para se tornar sábio de verdade; pois a sabedoria deste mundo é insensatez diante de Deus" (1 Cor 3, 18-19).

Não sei se vocês sabem, mas me identifico muito com o catolicismo. Acredito que há uma força superior, já que não há como a vida ter surgido do nada, (o que ocorreu antes do Big Bang? E antes disso? E antes disso? Só o sobrenatural explica, já que é eterno e não há antes do eterno) e que essa força (Deus, Alá, Buda, ou algo do tipo) rege o mundo através da ciência (que nada mais é que uma demonstração dos acontecimentos, a ciência não causa nada). Mas isso tudo é assunto pra outro post. Enfim, não sou inteiramente católico, nem acredito por completo na bíblia, mas essa passagem realmente é inspirada.
Trocando a passagem em miúdos, o que São Paulo quer dizer é que o homem é sempre a "tábula rasa" de John Locke. Porém, se John Locke dizia que o homem nascia como uma tábula rasa, São Paulo diz que o homem nasce, vive e morre como uma tábula rasa. Notei duas interpretações para as sábias palavras de São Paulo:

1. O homem, como ser ignorante que é, consegue praticar a proeza de cometer os "mesmos" erros frequentemente. O homem não aprende com sua própria história.

2. Se olharmos o conhecimento de um homem em comparação à todo o conhecimento existente e potencial, facilmente observa-se que o conhecimento de um homem é nulo, é desprezível. O homem é e sempre será um copo de água incompleto. O verdadeiro sábio reconhece que sabe tão pouco em relação ao conhecimento potencial que seu conhecimento é nulo, é na verdade, uma insensatez. O verdadeiro sábio, entretanto, mesmo sabendo que nunca será perfeito, não desiste de atingir a perfeição.

As duas interpretações são belas, mas vou me ater à segunda.Vê-se claramente que São Paulo foi altamente influenciado por Sócrates. Na verdade, essa passagem é uma aprofundação do "só sei que nada sei" socratiano. Se observarmos a história humana com mais atenção todos os grandes sábios em suas épocas disseram à sua maneira o mesmo: busque a perfeição, embora não possas atingi-la, busque o amor. Em minha opinião, a perfeição é o amor. Uma sociedade utópica seria regida pelo amor. Sócrates disse: "só sei que nada sei". Platão disse que a realidade como nós a conhecemos era uma pálida reprodução do mundo das Ideias. Aristóteles disse que todo ato era algo em potência, estava em constante melhoramento. São Paulo disse que o sábio era insensato. Locke disse que o homem era uma tábula rasa. Einstein disse que a busca da verdade era um domínio no qual seríamos crianças por toda a vida.
E Jesus disse: "amai-vos uns aos outros como Eu vos amei".
Então, meus caros, reconheçam suas respectivas insensatezas. Admitam-se imperfeitos para assim chegarem mais próximos da perfeição.
O homem é como um copo d'água incompleto que nunca fica cheio.
Mas nem por isso deve deixar de tentar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vivemos a era do nominismo

O título é autoexplicativo...

Vivemos uma época em que tudo tem um rótulo, todas as pessoas se prendem as suas únicas verdades. Todo o resto não faz sentido para essas pessoas. Claro, a discordância é um direito de cada um, mas o que acontece hoje é que as pessoas são muito fechadas.

Eu sinceramente pensava há algum tempo que vivíamos num mundo moderno, no qual tudo que era novo se aceitava facilmente e se não era aceito era, ao menos, respeitado. Enganei-me redondamente. A verdade é que a vanguarda sempre fica meio que em evidência e a intolerância e o retrógrado sempre escondidos em suas casas. Mas alguns fatos recentes trouxeram tudo isso à tona. Crimes homofóbicos, ações racistas, etnocêntricas e preconceituosas e intolerância até contra deficientes físicos me alertaram para essa realidade instransigente.

Isso nos traz para o tema central deste post: o nominismo. Comunismo, capitalismo, socialismo, cristianismo, islamismo, budismo, judaísmo, progressismo, tradicionalismo, romantismo, realismo, desenvolvimentismo, vegetarianismo, carnivorismo, canibalismo, etc. O que quero dizer é que as pessoas querem sempre achar algo para ser diferentes, apenas para humilhar e rebaixar as escolhas do próximo, mas a verdade é que somos todos iguais na diferença. Não há verdade absoluta, nem mesmo esta. Cada singular particularidade deveria nos unir, nos aproximar. Saber conviver com as diferenças é fundamental para que a socialidade do homem sobreviva.

Devemos encontrar a unidade na diferença.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011