segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Como explicar o inexplicável?


"Vários transeuntes de uma cidade no sul da China ignoraram uma menina de dois anos de idade que havia sido atropelada, segundo a agência oficial de notícias do país, Xinhua.

O acidente na cidade de Foshan causou morte cerebral no bebê.

Imagens de câmeras mostraram a criança, chamada Yue Yue, sendo atingida por um furgão em um mercado.

A menina é então ignorada, durante sete minutos, por várias pessoas que passam pelo local. Ela é ainda atropelada por um segundo veículo."

Fonte: G1.globo.com

Primeiramente, isso é injustificável. Negar socorro a um ser humano, ainda mais a um bebê, que é inocência e bondade pura não deveria ser um ato próprio do senso ético e da natureza do animal racional que supostamente somos.
Não cabe a ninguém culpar uma pessoa, um estado, uma cultura ou uma raça sem entendermos profundamente o fato. Não obstante a imensa revolta diante da morbidez do acontecimento, não devemos abandonar a razão. Deve-se, sim, dar ouvidos ao grito esperneante da tristeza que sobre qualquer homem consiente se abate, mas também é necessária uma análise pensada sobre isso. 
De fato, é ABSURDO propor uma teoria racial que justifique isso cientificamente. Vários estudos já comprovaram que a etnia da qual alguém é proveniente não determina seu caráter. Acusar o asiático é propor um novo holocausto. Mesmo assim, cheguei a ler comentários no Youtube dizendo que os chineses eram "cachorros". O que é injustiça duas vezes, pois além denegrir uma raça, não estaríamos fazendo jus aos cães.

Seria idiotisse culpar a cultura chinesa ou seus costumes e tradições. Grande parte da arte e da cultura da China falam em equilíbrio, amor, etc. E mesmo que se pudesse culpar a cultura sino-asiática, tal fato não seria justificável, pois, embora hajam diferenças gritantes entre as sociedades oriental e ocidental, existem lugares comuns que pregam o altruísmo e a ajuda ao próximo.
Facilmente, poderia se culpar apenas as pessoas envolvidas, falar que é um caso isolado ou que as pessoas não viram e que está tudo bem. Mas elas viram. É doentio. É um comportamento muito repugnante e abrangente para se repetir em aproximadamente 20 pessoas (2 que atropelaram e mais 18 pedrestes que ignoraram a criança sangrando em agonia), além dos donos das lojas que estavam ao redor.
Alguns dirão, e já disseram, que a culpa é do estado chinês (ou até do comunismo) e das suas leis, se referindo ao "Nanjing judge", caso em que um homem foi multado por socorrer uma idosa caída na rua, após ela ter dito que fora ele quem a empurrara. O veredito chinês se apoiou numa tese tão grosseira quanto o próprio incidente: "se ele não fizera mal, por que ele teria a ajudado?" Porém, apesar de até haver um certo embasamento lógico, ainda é muito fácil e confortante dizer que o culpado é Mao Tsé Tung e sua criação do economicamente monstruoso estado chinês. O buraco há de estar mais embaixo.
Na minha rasteira opinião, o triste e extremamente lamentável ocorrido serve de alerta para toda a humanidade. Aonde vamos parar? Cabe aqui, sim questionar a evolução. Quais são os valores que estão impregnados subvertida e inconscientemente em toda a irracionalidade da sociedade que o homem criou? Todos nós somos responsáveis. O mais importante é não deixar que isso seja simplesmente esquecido com o tempo, que nos enganem e deem justificativas vãs, que deixem, só por um segundo, de agir pensando em tentar melhorar ou ao menos não piorar a situação da humanidade, que está por um triz de se desvirtuar por completo. Espero sinceramente que não.

domingo, 16 de outubro de 2011

Perdão

Verdejando na angústia do calar
Adagiando a cada passo
Como se me adejasse no espaço
Cada um dos nossos monossilábicos diálogos
Cada um dos nossos olhares imediatos
Cada um dos sorrisos envergonhados

Espero um dia, talvez, poder encontrar
O teu rosto sincero
Por um dia inteiro, te estudar
Cada minucioso detalhe imperceptível e depois gastar
Mais um dia para procurar
As palavras para explicar
E tentar fazer uma poesia que não seja tão ruim
Quanto essa
Perdão

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Jimi Hendrix

Ainda lembro-me (vagamente) do dia em que ouvi aquela guitarra pela primeira vez. Tinha por volta de 12 anos e uma imensa curiosidade sobre tudo que fugia do padrão. Vou confessar, ineditamente, odiei. Não estava pronto para tanto. Aquela microfonia que beirava o inescutável e agudos de ensurdecer qualquer um. É aquele tipo de coisa de se escuta, vê ou sente e dá aquela sensação: "que porra é esta?" Tentei esquecer e voltar para a minha vida normal e mundana. Inútil. Decidi dar outra chance pra aquele carinha a quem chamavam de melhor guitarrista do mundo (uma das poucas escolhas certas da civilização humana). Comecei a entender que a complexidade daquele som estava muito além do meu alcance e, conforme crescia como pessoa, adorava cada vez mais sua música. Vivia me perguntando o porquê daquilo. Numa música, eu ouvia a voz e a guitarra mais aveludadas do universo, na música seguinte, pura fúria e confusão. Hoje cheguei perto de conseguir explicitar o que sinto quando ouço Jimi Hendrix. Poucos artistas conseguiram captar a essência bela e doentia da natureza do homem do mesmo modo que ele. Toda a sujeira, todo o desconforto e dor nos ouvidos produzidos por aqueles sons não devem ser evitados, eles refletem o desespero causado pelas atitudes do "homo homini lupus". Juntamente com uma bateria "virada na moléstia" e um baixo fazendo a "cozinha" pra tudo isso, surge uma catarse de destruição, ira, ódio e revolta. Gritando por socorro, berrando desesperadamente por atenção. Logo em seguida, percebe-se a poeira baixando e o choro melodioso que é exalado da sua guitarra rasga e cicratiza. É um som que rompe qualquer barreira e inspira o que há de melhor em qualquer pessoa. É o amor na mais pura transcedentalidade.